Vídeo mostra como a união entre ciência, tradição, conectividade e relações humanas transforma vidas

A pesquisadora Cynthia Torres e o agricultor Jamil Corinto em cena do vídeo

Lançado pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) no dia 3 de junho, o vídeo Saberes que se espalham, produzido em parceria com a Embrapa Cerrados (DF), narra a história do agricultor familiar de Catalão (GO) Jamil Corinto, mostrando como a pesquisa, os saberes tradicionais, a conectividade e as relações humanas produzem impactos sociais duradouros e como a Embrapa e a RNP, juntas, potencializam ambientes de inovação no campo.

O vídeo é o terceiro episódio da série documental Conectar é Transformar Vidas, que apresenta histórias reais nascidas em ambientes de ensino, pesquisa e inovação e que se transformaram em laços de vida, apoio e transformação. A ideia, segundo a RNP, é mostrar, em documentários curtos, a força da comunidade científica e acadêmica e como a instituição conecta pessoas, instituições, ideias e soluções para gerar transformação humana.

primeiro episódio da série conta a história das relações criadas entre professores e alunos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul durante o período das enchentes que atingiram o estado em 2024. Já o segundo episódio narra a trajetória de um jovem pesquisador da Universidade Federal do Maranhão que encontrou uma forma de ascender na carreira por meio do relacionamento com seus professores.

Ao encerrar a trilogia, a história de superação de um drama familiar, pertencimento e legado protagonizada por Jamil, parceiro de projetos de pesquisa em agroecologia liderados pelos pesquisadores Cynthia Torres e Altair Machado, evidencia como a ciência, o conhecimento e as relações interpessoais podem superar dificuldades e gerar perspectivas de continuidade no meio rural brasileiro.

Conhecimento espalhado como sementes

Em “Saberes que se espalham”, o agricultor, autodidata e inventor por vocação Jamil Corinto e sua esposa Lucimar Alves enfrentam um período de luto profundo e afastamento da terra após a perda do único filho homem, sucessor natural do trabalho na Fazenda Corinalves, propriedade da família do casal. É nesse momento que a parceria construída ao longo de cerca de 20 anos com a Embrapa Cerrados, especialmente com os pesquisadores Cynthia Torres e Altair Machado, ganha nova dimensão.

Com apoio técnico, científico e humano, Jamil descobre que seu conhecimento agroecológico, construído ao longo de décadas, não se perderia com a ausência de um herdeiro biológico. Os saberes do agricultor se transformam em herança coletiva, compartilhada com estudantes de escolas agrícolas, universitários, pesquisadores da Embrapa e agricultores da região de Catalão, e com os visitantes que vêm de outros estados e até mesmo do exterior.

O agricultor não esconde a emoção ao ver parte da história de vida e do trabalho registrados em vídeo. “Foi bom que tivemos a nossa história eternizada, contando um pedaço da nossa vida, das coisas que a gente faz, dos cuidados que temos aqui com a natureza. Acho importante ter um cuidado especial com a natureza onde a gente vive e na qual a gente trabalha, e o amor que a gente tem por preservá-la. Estamos no meio do mato, então preservamos o que podemos”, comenta Jamil.

Cynthia Torres conta que a experiência de gravar o vídeo foi muito interessante e intensa para todos os participantes: “Uma dinâmica totalmente diferente da nossa rotina, com luzes, câmeras, ação e muitas repetições, numa semana de trabalho bastante divertida – teve de tudo, inclusive uma deliciosa pamonhada. A história de vida do Jamil daria uma minissérie, e a da nossa parceria com ele, uma novela! Mas o episódio resume muito bem essa trajetória. Foi uma honra ter participado desse vídeo, que é uma homenagem a todos os agricultores parceiros e a toda a equipe técnica dos nossos projetos”.

Lázaro Mendes, analista de comunicação e marketing da RNP e um dos responsáveis pela produção do vídeo, ressalta a ideia de legado trazida pela história do agricultor de Catalão. “Pensamos em contar uma história que não fosse somente sobre agroecologia, mas também sobre as pessoas que fazem agroecologia, os agricultores familiares e a vida no campo, que é muito mais que a produção desenvolvida nele. Também é cultura, é legado, é tradição. E o Jamil representa, aqui, toda uma comunidade de agricultores familiares do nosso país”, afirma.

Mendes aponta que as relações do agricultor familiar ao longo de sua trajetória e a vontade de desenvolver o conhecimento adquirido permitiram que ele superasse, de certa forma, a perda do filho e desse continuidade à tradição que havia construído. “Para um agricultor que planta hoje pensando no amanhã, a ideia de continuidade pode significar tudo. E a relação com a Cynthia e o Altair também foi determinante para que o Jamil conseguisse voltar a ter uma perspectiva de vida e espalhar as ‘sementes’ do seu conhecimento com os outros agricultores e toda a comunidade em Catalão”, observa.

História dentro da história: as pesquisas em agroecologia

Para a elaboração do vídeo, toda a história de quase 20 anos de pesquisa – uma longa sequência de projetos financiados pela Embrapa e por recursos externos em manejo da agrobiodiversidade com enfoque agroecológico – foi revisitada, como lembra Cynthia Torres.

A Fazenda Corinalves é um dos polos de irradiação das atividades desses projetos. Nela são conduzidos ensaios, unidades demonstrativas, células de seleção de variedades de cultivos como milho e feijão, além do desenvolvimento, adaptação e validação dos chamados corredores agroecológicos – faixas contínuas e intercaladas de diferentes cultivos alimentares e espécies de plantas de cobertura, planejadas para explorar a diversidade funcional de modo a recuperar e utilizar a agrobiodiversidade, gerar renda, reduzir a dependência por insumos, aumentar a resiliência de agroecossistemas e promover o acesso a alimentos produzidos localmente, diversificando as dietas.

Os corredores agroecológicos estão atualmente espalhados por diversos estados brasileiros e comunidades de agricultores familiares, por ação do Movimento Camponês Popular, um dos parceiros nos projetos de pesquisa, que constrói e difunde com a Embrapa essas estratégias produtivas, além de variedades e práticas agroecológicas. Também já foram implantados na Argentina e na Bolívia, no âmbito do projeto trinacional “Raízes Agroecológicas”.

“O Jamil escolheu ser ‘melhorista’ e guardião da variedade de milho BRS Sol da Manhã, por ela atender as suas necessidades, pelas características da variedade e pelo desempenho produtivo desde os ensaios conduzidos na propriedade. E exerce com perfeição esse trabalho, sobre o qual tem total autonomia, assim como no manejo agroecológico de sua área”, diz a pesquisadora.

Ela explica que as pesquisas em agroecologia são feitas nas propriedades dos agricultores e a partir de suas demandas, sendo de caráter participativo desde a formulação. Além de exigirem resultados robustos e replicáveis, obtidos com critérios técnicos, devem contemplar particularidades de análises e considerações, principalmente dos fatores humano e ambiental. Também são de caráter sistêmico, já que não se faz o melhoramento de uma variedade sem considerar o sistema de produção, e estruturante, no qual capacitações e trocas de experiências são essenciais para que o agricultor domine o conhecimento e a ciência envolvidos em todo o processo.

“É muito gratificante ouvir o Jamil falando de ganho genético, de qualidade de solo, microrganismos benéficos, de controle biológico, de plantas de cobertura e ver as experiências desse ‘campo de experimento da Embrapa’, como ele chama a área destinada às nossas atividades – e até colocou uma placa – se refletirem em outras ações integradas ao nosso trabalho na promoção da diversificação das atividades produtivas dele e nos conhecimentos que ele dissemina a outros agricultores”, comenta Cynthia.

O pesquisador Cícero Pereira, que integra a equipe de Cynthia e Altair Machado desde o início das pesquisas, destaca o comprometimento e o bom relacionamento com Jamil e Lucimar para o êxito do trabalho. “A Embrapa trabalha com o agronegócio empresarial, que tem sistemas de cultivo altamente tecnológicos e uso de insumos e defensivos agrícolas, mas também trabalha com sistemas onde não se usa esse tipo de tecnologia. A relação humana existente entre pesquisadores e produtores é fundamental para que haja sucesso num projeto como esse. E tudo começou ali com o Jamil. Graças a essa interação, e com ele recebendo visitas e difundindo o uso do sistema agroecológico, a Embrapa está ganhando o mundo com esse tipo de sistema”, afirma, parabenizando a RNP pelo vídeo. 

Cynthia acrescenta que o sucesso da parceria com o agricultor tem gerado novos frutos, projetos e ideias, além de recursos financeiros para que ele melhore suas práticas com a estruturação de outros setores e atividades da fazenda de forma integrada e agroecológica. “Isso traz autonomia e sustentabilidade”, resume.

Para a pesquisadora, grande parte desse sucesso está na força e na resiliência da família, na parceria do casal, nas ações do movimento social e na atuação coletiva da associação de agricultores. “Mas, principalmente, na curiosidade e na vontade de aprender do Jamil”, completa.

O protagonismo da Embrapa e a conectividade da RNP

Ao mostrar como ciência, tecnologia e saber tradicional se entrelaçam para reconstruir não apenas um agricultor, mas uma rede inteira de pessoas ligadas pela terra, pelo cuidado e pelo conhecimento, o episódio insere a Embrapa como elo científico e pilar de apoio humano na trajetória de Jamil Corinto.

Os produtores do vídeo explicam que o protagonismo da instituição de pesquisa se dá em três dimensões: conhecimento que transforma, pois a pesquisa em agroecologia, especialmente o melhoramento genético participativo, se mostra acessível e transformadora quando unida ao saber tradicional do agricultor; construção coletiva do saber, já que a interação dos pesquisadores com Jamil demonstra que inovação nasce da troca: a ciência aprende com o campo e o campo se fortalece com a ciência; e conexão que gera legado, uma vez que a presença da Embrapa é decisiva para que o conhecimento do agricultor seja preservado e multiplicado – não como herança individual, mas como patrimônio comunitário.

Já a RNP é mostrada no episódio e em toda a série como uma infraestrutura invisível que conecta universidades, institutos federais e centros de pesquisa brasileiros como os da Embrapa. “A RNP conecta a Embrapa à internet e, por meio desse canal, a Empresa tem um artifício a mais para se conectar com os agricultores, transmitindo todo o conhecimento, toda a pesquisa que vocês desenvolvem para a comunidade. E os agricultores acabam replicando na região deles esse conhecimento. Isso cria todo um ecossistema de colaboração que, para nós, é motivo de muito orgulho”, diz Lázaro Mendes.

No caso de Jamil, o acesso à internet foi essencial para que ele pudesse buscar referências e adaptar ferramentas, aprender técnicas novas, dialogar com pesquisadores e participar das pesquisas sobre melhoramento genético participativo e sistemas agroecológicos.

Cynthia Torres lembra que, a partir de conhecimentos adquiridos na internet, o agricultor construiu e instalou um biodigestor, com o qual produz gás de cozinha para sua casa e biofertilizante, que é aplicado nas lavouras. Jamil também teve acesso à energia solar, construiu fossa séptica, além de facilidade na compra de equipamentos e peças para seus inventos, consertos e adaptações.

A pesquisadora acrescenta que embora não haja relação direta com as pesquisas, a inclusão digital, a chegada e a melhoria do acesso à rede mundial de computadores foram fundamentais para potencializar o trabalho com o agricultor. “A comunicação é diária conosco e a divulgação de publicações, vídeos, algumas curiosidades e experiências de outros locais tem ajudado bastante na condução das atividades. Isso sem falar nas capacitações on-line de técnicos e agricultores, que, no período da pandemia, por exemplo, foram essenciais para darmos andamento a ações previstas nos projetos”, comenta. 

Leia mais sobre o episódio e a série da RNP aqui.

Assista ao vídeo “Saberes que se separam”: https://www.youtube.com/watch?v=5nWZG7juYyg

Breno Lobato (MTb 9417/MG)

Embrapa Cerrados

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