Entre o salário de Marcelo e as vendas de Ana Luísa, uma família de Dourados simboliza o próximo desafio de MS: fazer o crescimento chegar ao bolso de quem trabalha
Em Dourados, Ana Luísa e Marcelo fazem as contas antes de fazer planos. O casal vive com os dois filhos em uma casa simples, as crianças estudam em escola pública e a renda familiar gira em torno de R$ 2.500 por mês. Ela trabalha de forma autônoma, vendendo lingerie. Ele é funcionário de uma empresa que comercializa produtos agropecuários e recebe salário fixo.
Antes de qualquer outro gasto vêm alimentação, água, energia, aluguel e transporte. É o orçamento cotidiano, feito de despesas que não podem esperar, que determina quanto — e se — haverá alguma sobra ao fim do mês.
“Hoje nossa renda gira em torno de R$ 2.500 por mês. Ana Luísa trabalha de forma autônoma como vendedora de lingerie e eu sou funcionário de uma empresa que comercializa produtos agropecuários, recebo um salário fixo, que garante parte importante do orçamento familiar”, conta Marcelo.
Ainda assim, o casal tenta olhar além das contas imediatas. A prioridade são os filhos e a expectativa de que a educação amplie as oportunidades da família. Ana Luísa também pretende fazer o pequeno negócio crescer.
“Quero aumentar minha carteira de clientes e assim aumentar meus ganhos”, diz.
A rotina dos dois ajuda a traduzir uma questão que os indicadores econômicos, sozinhos, não conseguem mostrar. Mato Grosso do Sul atravessa um período de emprego elevado, expansão da atividade econômica e renda média do trabalho acima da nacional. O desafio é fazer com que esse avanço seja percebido com maior intensidade dentro das casas, especialmente entre famílias que vivem do próprio trabalho e têm pouca margem depois das despesas essenciais.
É nesse terreno que se encontra uma das tarefas políticas da gestão do governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição: aproximar os resultados econômicos da renda disponível das famílias.
Mais gente trabalhando, mas a conta continua apertada
Mato Grosso do Sul alcançou 1,46 milhão de pessoas ocupadas em 2025, crescimento de 4% em relação ao ano anterior. O rendimento médio do trabalho chegou a R$ 3.768, enquanto o Estado terminou o ano com saldo positivo de 19.756 empregos formais. No primeiro trimestre de 2026, a taxa de desocupação ficou em 3,8%, a sexta menor do Brasil.
São números que mostram uma economia aquecida, mas que não respondem a uma pergunta decisiva para quem paga supermercado, aluguel, energia, transporte e prestações: quanto efetivamente sobra depois que as contas chegam?
Uma família pode estar empregada e ainda assim não conseguir formar reserva financeira.
Pode ter melhorado de renda e continuar recorrendo ao cartão para atravessar o mês. Nesse ponto, crescimento econômico e sensação de segurança financeira nem sempre caminham na mesma velocidade.
Para Riedel, o desenvolvimento precisa avançar além do aumento do Produto Interno Bruto e da instalação de novas empresas.
“Significa salário que acompanha as despesas, emprego com perspectiva, escola pública que atende os filhos durante toda a jornada, saúde acessível, crédito responsável e condições para que um pequeno negócio cresça”, afirma.
Quando o cartão passa a completar o salário
O endividamento ajuda a dimensionar essa pressão.
Em maio de 2026, 72,3% das famílias de Campo Grande tinham algum comprometimento do orçamento com cartão de crédito, carnês, empréstimos ou financiamentos. O dado se refere à Capital e não pode ser automaticamente projetado para todo Mato Grosso do Sul, mas oferece um retrato das dificuldades enfrentadas por parte das famílias urbanas.
Endividamento, porém, não significa necessariamente inadimplência. Uma família que paga suas parcelas em dia está endividada, mas não deixou de honrar os compromissos. O sinal de alerta aparece quando o crédito, em vez de financiar um bem ou investimento, passa a ser usado para despesas recorrentes.
Em abril, 29,5% das famílias campo-grandenses tinham contas atrasadas e 13,1% declaravam não possuir condições de quitá-las naquele momento.
Para a economista Daniela Teixeira Dias, parte dessa pressão está relacionada ao aumento do custo dos itens essenciais, que pode ser sentido de maneira mais intensa pelas famílias do que o índice geral de inflação.
“Quando olhamos o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e analisamos grupos específicos, como alimentos, bebidas e transportes, percebemos que a conta do fim do mês já não fecha da mesma forma que antes. Para comprar os mesmos produtos de 2024 ou 2025, as famílias precisam desembolsar mais dinheiro”, afirma.
O problema se agrava quando despesas que voltarão no mês seguinte são parceladas. A compra atual se soma à parcela anterior e reduz antecipadamente a renda futura.
“Hoje o endividamento está sendo usado para pagar contas do dia a dia. São compras de supermercado, contas de água, luz e outras despesas fixas. Como esses gastos se repetem todos os meses, existe um risco maior de formação de uma bola de neve financeira”, explica Daniela.
Esse movimento alcança também outros setores da economia. Quando alimentação, moradia, energia e transporte absorvem parcela maior do orçamento, as famílias diminuem gastos com lazer, entretenimento e outros produtos e serviços, reduzindo a circulação de dinheiro.
Por isso, o problema não se resume à educação financeira. Organização e planejamento ajudam, mas têm alcance limitado quando a renda disponível é pequena diante das despesas básicas.
Serviço público também pesa no orçamento
A renda de uma família não é determinada apenas pelo que entra na conta bancária. Também importa quanto ela precisa gastar para substituir serviços que poderia encontrar na rede pública.
Uma vaga em escola de tempo integral, por exemplo, pode reduzir despesas com alimentação e cuidados no contraturno e facilitar a rotina de pais que trabalham fora. Em 2025, 61,2% das escolas estaduais ofereciam alguma modalidade de tempo integral, alcançando mais de 52 mil estudantes. O percentual de 61,2% corresponde às escolas com essa oferta, e não à proporção de alunos atendidos.
Para uma mãe ou um pai, a ampliação da jornada escolar pode representar a possibilidade de aceitar um emprego ou permanecer mais tempo no trabalho. Para a criança, significa maior permanência no ambiente escolar.
“A mesma lógica vale para saúde, transporte, saneamento e segurança. Quando a família precisa pagar pelo serviço que não encontra na rede pública, sua renda disponível diminui”, afirma Riedel.
Para famílias como a de Ana Luísa e Marcelo, que já colocam as despesas essenciais no topo do planejamento mensal, qualquer gasto que possa ser reduzido por um serviço público acessível aumenta a margem para outras necessidades.
Qualificação para transformar emprego em renda melhor
O baixo desemprego resolve uma parte do problema. A outra é a qualidade das vagas e a possibilidade de o trabalhador avançar profissionalmente.
Um emprego pode garantir o pagamento das contas sem necessariamente oferecer perspectiva de aumento de renda. Por isso, a qualificação profissional ocupa espaço na estratégia estadual de aproximar o ciclo de industrialização dos trabalhadores locais.
Lançado em 2025, o MS Qualifica Digital reúne cursos e oportunidades de emprego e aproxima Governo do Estado, Fundação do Trabalho de Mato Grosso do Sul (Funtrab), empresas, sindicatos e instituições de ensino.
O resultado dessa formação, no entanto, precisa aparecer depois do certificado. Para produzir impacto na vida das famílias, a qualificação deve abrir caminho para promoções, novas funções ou vagas mais bem remuneradas — e precisa estar acessível a quem concilia trabalho, filhos e deslocamentos.
A lógica defendida pela gestão estadual é conectar a chegada de empresas à preparação dos trabalhadores do próprio Estado. Se a industrialização cria postos de trabalho, a qualificação pode ampliar a participação da mão de obra local também nas vagas de maior remuneração.
Quando parte da renda nasce dentro de casa
A trajetória de Ana Luísa revela outra característica comum entre famílias trabalhadoras: a combinação entre salário fixo e pequenos negócios.
Enquanto Marcelo tem renda mensal proveniente do emprego, ela vende lingerie de forma autônoma e pretende ampliar a clientela. Em muitas casas, atividades semelhantes funcionam como complemento do orçamento e, em alguns casos, tornam-se a principal possibilidade de aumentar a renda.
Pequenos negócios frequentemente começam com pouco capital, dentro da própria residência e com as finanças da atividade misturadas ao dinheiro familiar. A falta de orientação, mercado e acesso adequado a crédito pode limitar o crescimento.
O ciclo 2025–2028 do Cidade Empreendedora alcança 36 municípios por meio de parceria entre Governo do Estado, Sebrae/MS e prefeituras, com iniciativas de simplificação, compras públicas, formação e apoio aos pequenos negócios.
O efeito dessa política, entretanto, não se mede apenas pelo número de cursos ou atendimentos realizados. O resultado concreto está na capacidade de esses empreendimentos permanecerem abertos, ampliarem faturamento e, eventualmente, gerarem empregos.
Para Riedel, a própria expansão industrial deve produzir efeitos para além dos grandes empreendimentos.
“Quando uma indústria chega, seus efeitos não devem terminar nos portões da fábrica. Podem alcançar restaurantes, mercados, oficinas, transportadores e fornecedores. Fazer essa renda circular é uma forma de aproximar o crescimento das famílias”, afirma.
O próximo ciclo será medido dentro de casa
Mato Grosso do Sul chega a esse debate com indicadores favoráveis: desemprego baixo, expansão do emprego formal, rendimento médio elevado em comparação com outras unidades da Federação e novos investimentos.
A etapa seguinte é menos visível nas estatísticas gerais e mais perceptível na rotina.
O trabalhador conseguiu transformar uma qualificação em salário maior? O pequeno negócio ganhou clientes e faturamento? A jornada escolar permitiu aos pais permanecer no emprego? A família deixou de utilizar o cartão para completar as compras básicas?
Para Riedel, a continuidade da política de investimentos precisa estar ligada à qualificação, aos serviços públicos, ao crédito responsável e ao fortalecimento dos pequenos negócios.
É uma mudança de régua. Depois de uma fase marcada pela expansão da economia e do emprego, o desafio passa a ser medir o desenvolvimento também pelo espaço que resta no orçamento depois das contas pagas e pela possibilidade de planejar o futuro.
Em Dourados, essa medida cabe em um objetivo simples de Ana Luísa: conquistar mais clientes e aumentar a própria renda. Entre o salário de Marcelo, as vendas que ela faz e as despesas de uma casa com dois filhos, o crescimento econômico ganha sua tradução mais concreta. Para a família, progresso será poder fazer mais do que equilibrar o mês — será conseguir avançar.
Assessoria de Imprensa | Eduardo Riedel
Federação União Progressista
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