
por Fernando Saad Benati, estrategista global da Avenue
O Federal Reserve (Fed) decidiu manter a taxa básica de juros na faixa entre 3,75% e 4% ao ano, como o mercado já esperava. No entanto, alguns pontos apresentados pelo presidente Kevin Warsh após a decisão trouxeram novidades que talvez não estivessem no radar dos investidores.
Em primeiro lugar, Warsh reforçou, em diversos momentos, o compromisso do Fed com a meta de inflação de 2%. Segundo ele, trata-se de um objetivo único, sem intervalo de tolerância, e esse compromisso vem sendo enfatizado pelo banco central americano nas últimas reuniões.
Outro ponto destacado foi o ritmo de crescimento da economia americana, considerado forte. Warsh mencionou o avanço do consumo e dos investimentos, especialmente aqueles impulsionados pelo setor de tecnologia, e indicou que a economia deve ter apresentado um crescimento robusto no terceiro trimestre.
Em relação aos preços do petróleo, o presidente atribuiu a recente alta ao cenário geopolítico, em meio ao conflito no Oriente Médio. Ele observou que alguns setores já demonstram os efeitos desses aumentos e ressaltou que cabe ao banco central evitar que essas pressões inflacionárias se espalhem para o restante da economia.
Talvez uma das mudanças mais relevantes esteja relacionada à estrutura das reuniões do Fed. A partir de 2027, uma das oito reuniões anuais passará a ser dedicada a discussões de longo prazo sobre a estratégia e a atuação do banco central, sem uma decisão de política monetária. Assim, serão sete reuniões com decisões naquele ano. Em 2028, esse formato será adotado em duas das oito reuniões, reduzindo para seis o número de encontros com decisões.
A justificativa para essa mudança é permitir que o Fed tenha mais espaço para análises aprofundadas e para discutir questões estruturais e estratégicas de longo prazo.
Quando questionado sobre a possibilidade de os juros já estarem em um nível adequado para a economia, Warsh afirmou que os próximos indicadores serão fundamentais para avaliar essa questão. Ele ressaltou que ainda não há clareza suficiente para afirmar que a política monetária está no nível ideal.
Nesse contexto, os dados previstos para amanhã ganham ainda mais relevância: o índice de preços de gastos com consumo pessoal (PCE), uma das principais referências de inflação utilizadas pelo Fed, e o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos referente ao terceiro trimestre. Ambos serão importantes para avaliar os próximos passos da política monetária.
A sinalização de que ainda não há certeza sobre o nível adequado dos juros contribuiu para uma queda dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano de dois anos durante a entrevista coletiva.
Por fim, Warsh também comentou a relação entre os preços do petróleo e os juros negociados no mercado, ou seja, as taxas precificadas na curva de juros, e não necessariamente a decisão do Fed.
Segundo ele, essa relação vinha apresentando uma correlação positiva, mas esse comportamento deixou de ser observado recentemente. Enquanto o preço do barril de petróleo avançou para níveis superiores a US$ 100 e chegou à faixa de US$ 115, os rendimentos dos títulos recuaram. Esse movimento indica uma mudança na relação que vinha sendo observada entre essas duas variáveis.
Carolina Montuori
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