Projeto liderado pelo pesquisador Idemar Sprandel traz para as plataformas digitais o LP “Volume 01”, gravado em 1981, que marcou a identidade musical do leste sul-mato-grossense.
A história da música de Mato Grosso do Sul ganha um novo capítulo em sua preservação. O projeto Memória Fonográfica do MS, sob a curadoria do arqueólogo sonoro Idemar Sprandel, lança nas plataformas digitais o LP “Volume 01” do grupo Os Dutras em Chamamé. Originalmente lançado em 1981, o disco é considerado um dos registros mais autênticos da cultura regional da década de 1980.
Das festas paroquiais ao disco
A trajetória do conjunto começou de forma modesta: um trio que animava quermesses, bailes de igreja, casamentos e festividades comunitárias. Com raízes tradicionais em Água Clara e consolidação em Três Lagoas, os músicos tornaram-se pilares culturais do leste do estado, transformando eventos sociais em celeiros da identidade sul-mato-grossense.
O grupo era liderado pelos irmãos Tonico e Carlos Dutra (Carlinhos), acompanhados por Neguti e Nilson. Juntos, eles traduziram para o vinil a energia dos bailes regionais e o pulsar da bacia do Rio Paraná.
Inovação técnica e produção
Na época, o álbum foi uma aposta ousada do selo Cancan Discos, sob direção de Lário e produção de Lírio. A gravação utilizou a chamada “técnica Zécafi”, um diferencial tecnológico para o período que buscava elevar a qualidade sonora das produções regionais, marcando época na indústria fonográfica do estado.
Hinos regionais e exaltação à terra
O repertório do álbum equilibra o chamamé instrumental com faixas cantadas que abordam afetos, orgulho e pertencimento. Um dos grandes destaques é a canção “Bela Três Lagoas”, composta por Tonico e Carlos Dutra, que se consolidou como um verdadeiro hino de exaltação à “Cidade das Águas”.
O disco reúne ainda faixas emblemáticas como “Amor de Mãe”, “Homenagem a Antonio Custódio”, “Rancho Triste” e “Charmoso”.
Preservação do patrimônio sonoro
Mais do que um simples relançamento, a iniciativa do Memória Fonográfica do MS funciona como um trabalho de arqueologia cultural. O resgate garante que o legado de formações pioneiras não se perca com o tempo, permitindo que novas gerações compreendam as raízes da música sul-mato-grossense.
Ao ouvir o trabalho dos Dutras hoje, o público é convidado a uma viagem no tempo — um reencontro com a Três Lagoas dos anos 80 e com a essência do chamamé que segue influenciando a cena musical do estado.
João Maria Vicente
Foto – Redes sociais
