Entre trocas no recreio, ansiedade para completar o álbum e disputas por figurinhas raras, educadores discutem como transformar a brincadeira em oportunidade de formação.
Com a proximidade da Copa do Mundo de 2026, a febre das figurinhas volta às mochilas, aos recreios e às conversas das crianças. Em muitas escolas, o tema reacende discussões sobre permitir, restringir ou proibir os álbuns e as trocas dentro do ambiente escolar. No Colégio Cristão Reverendo Olavo Nunes, em Porto Alegre, a instituição optou por permitir a atividade, mas com regras e acompanhamento pedagógico. As trocas acontecerão em datas específicas, durante a aula de Educação Física, com monitoria e apenas entre alunos da mesma turma.
Para educadores ligados à educação cristã clássica, porém, a questão pode ser mais profunda. Antes de decidir o que fazer com o álbum, é preciso observar o que esse fenômeno revela sobre a formação das crianças: como elas lidam com desejo, posse, comparação, espera, frustração, justiça, generosidade e pertencimento.
Na escola, as trocas ocorrerão apenas em dias previamente definidos pela coordenação pedagógica, em espaço organizado e acompanhado por um monitor responsável durante a aula de Educação Física. A escola também definiu que não será permitido o jogo de “bafo” ou práticas semelhantes dentro do ambiente escolar, e orientou que as trocas aconteçam exclusivamente entre alunos da mesma turma.
As figurinhas podem ser uma experiência positiva quando favorecem encontro, troca, memória, organização, matemática, geografia, curiosidade por países e culturas, respeito a regras e convivência entre diferentes idades. Mas também podem se transformar em problema quando a dinâmica passa a gerar ansiedade, disputa, exclusão, pressão de consumo, trocas desiguais ou sentimento de inferioridade em crianças que não têm álbum, pacotes ou figurinhas consideradas valiosas.
Para a diretora pedagógica do Colégio Reverendo, Túria Ruiz, o fenômeno não deve ser analisado apenas como brincadeira ou distração.
“Na educação cristã clássica, olhamos para a rotina escolar como espaço de formação integral. Uma troca de figurinhas pode parecer apenas uma brincadeira, mas também revela como a criança lida com desejo, limite, justiça, generosidade e domínio próprio. O papel da escola não é apenas permitir ou proibir, mas orientar para que essas situações formem virtudes e não reforcem comparação, ansiedade ou disputa”, afirma.
Segundo Túria, a escola precisa estar atenta aos pequenos acontecimentos do cotidiano, porque muitas vezes é neles que aparecem oportunidades concretas de formação do caráter. Uma criança que quer muito uma figurinha rara, que tenta negociar com vantagem, que se frustra ao perder uma troca ou que exclui um colega que não tem álbum está expressando algo que precisa ser acompanhado pelos adultos.
“Quando a criança aprende a esperar, a trocar com honestidade, a respeitar combinados, a incluir o colega e a lidar com o não, ela está sendo educada para muito além daquele momento. A brincadeira pode ser formativa quando existe sentido, limite e orientação”, explica a diretora pedagógica.
A psicóloga escolar Antonella Bongarra Nunes avalia que a febre das figurinhas também precisa ser observada sob a ótica emocional. Para ela, o álbum pode fortalecer vínculos e criar momentos de alegria compartilhada, mas também pode produzir sofrimento quando a criança passa a associar pertencimento ao que possui.
“As figurinhas podem ser ponto de encontro, mas também podem virar fonte de sofrimento quando a criança sente que vale menos porque não tem álbum, não tem pacotes ou não consegue determinada figurinha. Nesses casos, os adultos precisam ajudar a recolocar a experiência no lugar certo. É uma brincadeira, não uma medida de valor pessoal”, afirma.
Antonella lembra que o ambiente escolar torna mais visíveis as diferenças entre as famílias. Algumas crianças recebem muitos pacotes, outras poucos, e algumas não participam da coleção. Sem mediação, essa diferença pode gerar comparação, constrangimento ou exclusão.
“O recreio é um espaço de convivência, não de mercado. Quando a troca vira vantagem, pressão ou disputa, a escola precisa intervir. Não necessariamente proibindo, mas orientando. A criança precisa aprender que brincar junto é mais importante do que ganhar a qualquer custo”, destaca.
Para a psicóloga, o tema também pode abrir uma conversa importante entre pais e filhos sobre consumo, desejo e frustração. A proximidade da Copa mobiliza emoções, expectativas e pedidos, mas nem todo desejo infantil precisa ser atendido imediatamente.
“Famílias podem usar esse momento para conversar sobre orçamento, espera, escolha e limites. A criança não precisa ter tudo para participar. Aprender a lidar com a frustração de maneira acompanhada é saudável e necessário”, diz Antonella.
A discussão ganha força porque a Copa do Mundo costuma mobilizar as crianças para além do futebol. O álbum pode despertar interesse por bandeiras, mapas, idiomas, atletas, seleções, países e culturas. Em sala de aula, o tema pode ser usado para trabalhar leitura, contagem, classificação, localização geográfica, pesquisa, produção textual e respeito às diferenças culturais.
Na perspectiva da educação cristã clássica, porém, o ponto central não está apenas no aproveitamento pedagógico do tema. Está na formação dos desejos e das virtudes. A escola observa não só se a criança está brincando ou brigando, mas que tipo de comportamento está sendo cultivado: desejo de possuir a qualquer custo ou capacidade de partilhar; tentativa de levar vantagem ou prática da justiça; comparação permanente ou gratidão; exclusão ou generosidade.
No Colégio Reverendo, localizado em Porto Alegre, situações cotidianas como brincadeiras, disputas, combinados e convivência no recreio são compreendidas como parte da formação integral. A instituição atua da educação infantil ao ensino médio e desenvolve uma proposta fundamentada em princípios cristãos, excelência acadêmica e educação cristã clássica.
Para Túria Ruiz, o debate sobre as figurinhas ajuda a lembrar que a formação escolar não acontece apenas nas aulas formais.
“Muitas vezes, o caráter é formado em situações simples. A forma como uma criança troca uma figurinha, reage a uma perda ou inclui um colega revela muito. A escola precisa olhar para esses momentos com intencionalidade, porque eles também educam”, afirma.
A questão, portanto, vai além da pergunta sobre liberar ou proibir figurinhas na escola. O desafio é compreender como adultos, famílias e educadores podem conduzir fenômenos de grande interesse infantil sem transformar a brincadeira em fonte de ansiedade, desigualdade ou disputa.
“A figurinha pode ser ponto de encontro ou ponto de conflito. A diferença está na forma como a experiência é acompanhada. Quando há orientação, ela pode ensinar muito mais do que futebol”, conclui Antonella.
Sobre o Colégio Cristão Reverendo Olavo Nunes
O Colégio Reverendo, localizado em Porto Alegre, atua da educação infantil ao ensino médio com uma proposta educacional fundamentada em princípios cristãos, excelência acadêmica, formação integral e parceria com as famílias. Com cerca de 350 alunos e 65 profissionais, entre professores, monitores e equipe administrativa, a instituição vive uma fase de expansão, com construção de novo prédio, ampliação de capacidade e consolidação gradual do ensino médio.
Fundado há 15 anos, o colégio iniciou nos últimos anos um processo de aprofundamento de sua identidade pedagógica por meio da educação cristã clássica, proposta que resgata a formação do caráter, o cultivo das virtudes, a contemplação do bom, do belo e do verdadeiro, o contato com grandes obras da literatura, da arte, da música e da história, além do fortalecimento da linguagem, da lógica, da memória e do pensamento crítico. A transição tem como uma das referências o Cidade Viva Education, sistema de ensino cristão, clássico, bilíngue e integral, adotado de forma gradual pela instituição.
Mais informações sobre o Colégio Cristão Reverendo Olavo Nunes estão disponíveis em: https://www.escolaolavonunes.com.br/.
Assessoria de Comunicação
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