​As telas mudaram, a saudade ficou: o retrato invisível do Cine Santa Helena, em Três Lagoas

As tardes de domingo em Três Lagoas já tiveram outro sabor, outro aroma e uma moldura bem diferente. Era o dia sagrado de se render ao feitiço da tela grande no Cine Santa Helena.

​Fundado em 1947 pelas mãos sonhadoras de Daniel Inácio de Souza, o velho cinema hoje seria um octogenário de memórias, se o tempo não tivesse pressa. Já se vão décadas desde que as luzes daquela sala se apagaram para sempre. O Santa Helena resistiu até onde pôde, mas acabou cedendo espaço à marcha implacável da modernidade: primeiro o videocassete, depois o DVD e, hoje, essa tela fria e individual do celular que traz o mundo na palma da mão, mas rouba o encanto do espetáculo coletivo.

​Em seus tempos de glória, a calçada da Rua Paranaíba fervilhava. O cinema era o coração pulsante da cidade. O público vibrava com os golpes precisos de Bruce Lee nos filmes de kung fu, divertia-se com as confusões faroestinas de Terence Hill e Bud Spencer, e desbravava selvas com o heróico Tarzan. Eram tempos em que o cinema nos ensinava a sonhar acordados.

​Nos seus últimos suspiros, já agonizante diante da concorrência tecnológica, a sala mítica tentou manter as portas abertas apelando para as exibições de fitas pornográficas durante a semana — uma tentativa melancólica de adiar o inevitável adeus.

​Hoje, no endereço onde a fantasia morava, funciona uma filial do Magazine Luiza. O projetor silenciou, as poltronas sumiram, e o eco dos aplausos foi substituído pelo burburinho do comércio varejista. Por anos, o três-lagoense órfão de sétima arte precisou cruzar a divisa do estado para buscar o cinema no shopping de Andradina. Mais tarde, a cidade ganhou o Cine Três Lagoas e, atualmente, abriga as salas modernas do Cinépolis no Shopping Três Lagoas.

​As salas de hoje são confortáveis e tecnológicas, é verdade. Mas para quem viveu aquela época, nenhuma poltrona moderna substitui a magia poética da poeira iluminada pelo projetor do Santa Helena, o lugar onde, por algumas horas, a vida real ficava do lado de fora.

João Maria Vicente

Foto – Reprodução Facebook