O fim da escala 6×1 exige uma nova infraestrutura para manter o Brasil funcionando

Por Gustavo Artuzo, CEO da Clique Retire*

A discussão sobre o fim da escala 6×1 já deixou de ser apenas um debate legislativo. Independentemente de quando a mudança entrar em vigor, ela expõe uma fragilidade que o varejo brasileiro convive há anos: a dependência da presença física de funcionários para manter operações funcionando durante toda a semana. Esperar a definição da nova regra para só então buscar soluções significa desperdiçar tempo em um cenário que exige adaptação desde já.

A resposta mais comum tem sido imaginar que será preciso contratar mais pessoas para cobrir os novos turnos. Mas esse raciocínio trata o efeito, não a causa. Aumentar permanentemente a folha de pagamento para resolver um problema operacional é uma solução cara e pouco eficiente. O verdadeiro desafio não está na quantidade de colaboradores disponíveis, mas na forma como as operações foram estruturadas para depender deles em todas as etapas do atendimento.

A causa real é que a infraestrutura de atendimento no Brasil ainda depende quase inteiramente da presença física de um colaborador para entregar, receber ou disponibilizar um produto ao consumidor. Isso nunca foi sustentável para operações que precisam funcionar sete dias por semana, e a nova legislação apenas antecipa um desafio que já existia. Enquanto o comércio eletrônico brasileiro continua em expansão, setores como moda e farmácia convivem com consumidores que esperam conveniência e flexibilidade para retirar suas compras. Segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), o e-commerce nacional movimentou cerca de R$ 235 bilhões em 2025, impulsionado justamente por categorias de alta recorrência, como vestuário, calçados e saúde. Esse crescimento exige que o varejo encontre novas formas de manter o atendimento disponível sem depender exclusivamente da presença de equipes em todos os horários.

A resposta certa não está apenas na gestão de pessoas, mas na forma como o atendimento ao consumidor é organizado. Com a redução das jornadas presenciais, o varejo precisará manter serviços funcionando mesmo quando houver menos equipes disponíveis nos finais de semana. Nesse cenário, o desafio deixa de ser exclusivamente logístico e passa a ser operacional. Como continuar oferecendo conveniência para quem compra online e escolhe retirar na loja sem aumentar escalas de trabalho? A automatização do Retire em Loja por meio de armários inteligentes resolve exatamente esse ponto, permitindo que o cliente tenha acesso ao produto de forma segura e autônoma, sem depender da presença de um vendedor ou estoquista no balcão durante todo o período de funcionamento.

O consumidor brasileiro, inclusive aquele que será diretamente beneficiado pelo fim da escala 6×1, já vive esse dilema. Quem trabalha de segunda a sexta-feira normalmente concentra tarefas pessoais no fim de semana, seja para retirar um medicamento, buscar uma compra de roupas ou calçados ou resolver outras demandas que não cabem durante o expediente. Se o varejo responder à nova jornada apenas reduzindo equipes e horários de atendimento aos finais de semana, esse consumidor também será impactado. É justamente nesse ponto que os armários inteligentes passam a cumprir um papel estratégico, permitindo que as empresas preservem o descanso das equipes sem limitar o acesso dos clientes aos produtos quando eles realmente podem buscá-los.

Os armários inteligentes são a peça que falta nessa equação, não uma opção entre outras, e não algo para decidir depois que a lei for promulgada. Eles não competem com o trabalhador nem tentam substituir o emprego formal. Assumem exatamente a carga que ninguém mais precisará assumir presencialmente. Uma rede de farmácias pode manter a retirada de medicamentos disponível durante todo o fim de semana sem manter funcionários dedicados exclusivamente a essa operação. Da mesma forma, varejistas de moda e calçados conseguem oferecer mais conveniência ao consumidor que só dispõe do sábado ou do domingo para retirar suas compras, enquanto preservam jornadas mais equilibradas para suas equipes. O resultado é uma operação que continua funcionando de forma ininterrupta, conciliando produtividade, conveniência e respeito às novas relações de trabalho.

A mudança não é um custo a mais para as empresas absorverem quando a PEC for promulgada. É a correção de uma dependência que já devia ter sido resolvida antes de o debate chegar ao Congresso. O trabalhador tem sua jornada e seu descanso respeitados como a nova legislação vai garantir, e a empresa mantém o fluxo girando sem parar, porque quem cobre a lacuna não é mais uma pessoa exausta numa escala injusta. É a infraestrutura urbana fazendo o trabalho que sempre devia ter feito.

*Gustavo Artuzo é engenheiro pelo ITA e especialista em logística urbana, é CEO da Clique Retire, empresa de tecnologia que oferece soluções de armários inteligentes para logística, varejo e mobilidade urbana.

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