Briga entre gigantes do transporte encareceu a viagem de Três Lagoas a São Paulo

A suspensão das linhas da Guerino Seiscento pela ANTT reduziu as opções de viagem no Leste do Estado, deixando passageiros de Três Lagoas dependentes de poucas empresas e com tarifas menos competitivas.

​O que começou como uma densa disputa jurídica e administrativa a centenas de quilômetros de distância acabou por atingir em cheio o bolso e a rotina dos moradores de Três Lagoas.

​Após a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) suspender cautelarmente 23 licenças da empresa Guerino Seiscento, a rota interestadual rumo a São Paulo (SP) perdeu uma de suas principais concorrentes. Como reflexo imediato, os passageiros três-lagoenses agora enfrentam tarifas mais altas, guichês fechados e uma drástica redução de horários.

​O estopim da crise: Andorinha vs. Guerino Seiscento

​A reorganização forçada do transporte rodoviário na região é fruto de um embate travado entre a Empresa de Transportes Andorinha (de Presidente Prudente-SP) e a Guerino Seiscento (de Tupã-SP).

  • A denúncia: A Andorinha acusa a Guerino Seiscento de utilizar suas autorizações de linhas interestaduais de forma irregular para realizar embarques e desembarques de caráter intermunicipal dentro do estado de São Paulo — prática proibida pelas regras de mercado da ANTT.
  • A sanção: A agência reguladora acolheu a denúncia e suspendeu cautelarmente as rotas da Guerino, incluindo as concorridas ligações Campo Grande-São Paulo e Três Lagoas-São Paulo.
  • A defesa: A Guerino nega qualquer irregularidade, critica o caráter imediato da punição antes da conclusão do processo administrativo e recorre judicialmente para reaver as linhas.

​O impacto no bolso do passageiro em Três Lagoas

​Sem a Guerino Seiscento no páreo, o mercado de Três Lagoas ficou polarizado. Hoje, quem precisa se deslocar até a capital paulista encontra um cenário de pouca concorrência, o que diminui as ofertas e passagens promocionais que costumavam aliviar o orçamento dos viajantes.

​Atualmente, as opções para o trecho se dividem da seguinte forma:

Empresa Categoria / Tarifa Mínima Diferencial / Observações
Reunidas Paulista A partir de R$ 285,99 Tarifa mais acessível, porém com horários restritos e frota própria.
Andorinha Tarifas superiores (Semi-Leito e Cama) Maior frota, mas com preços elevados e menor concorrência no trecho.

Nota: Com o fim da concorrência direta da Guerino, os bilhetes de categorias superiores (como Leito e Cama) operados pela Andorinha na região dispararam, seguindo a tendência de alta de quase 30% já consolidada no trecho que liga Mato Grosso do Sul a São Paulo.

​”Ficamos sem opção”: O desabafo dos usuários locais

​A falta de concorrência não se reflete apenas nos preços, mas também na qualidade do serviço prestado nos terminais rodoviários e dentro dos ônibus.

​A empresária da beleza Luany Oliveira, moradora de Três Lagoas, relata que a rotina de quem precisa viajar para São Paulo ou para a capital do Estado, Campo Grande, tornou-se um teste de paciência:

​”Está muito difícil comprar passagens em Três Lagoas. Os guichês frequentemente estão fechados, deixando os passageiros sem atendimento e sem informações. Quem precisa viajar diretamente para São Paulo hoje tem praticamente apenas a Reunidas como opção. Antes havia também a Guerino Seiscento, e isso diminuía a concentração do serviço.”

​Luany também chama a atenção para a queda na qualidade dos veículos e a confusão operacional na rodoviária local:

​”Em alguns casos, você compra a passagem acreditando que viajará por uma empresa, mas, na hora do embarque, o ônibus é da Andorinha. Na minha opinião, os veículos deixam a desejar em conforto e conservação. As empresas precisam rever essa situação e oferecer um atendimento digno aos passageiros, que pagam caro e esperam um serviço de qualidade.”

​O que acontece agora?

​Como a decisão da ANTT que barrou a Guerino Seiscento tem caráter cautelar, o processo administrativo ainda seguirá ritos de apuração de provas. Até que haja um parecer definitivo da agência ou uma liminar judicial favorável à Guerino, os passageiros de Três Lagoas continuarão reféns de um mercado com poucas opções e tarifas pressionadas pela falta de concorrência.

Efeito cascata: Ribas do Rio Pardo e Água Clara também sofrem

​O impacto da suspensão das linhas não para em Três Lagoas. Municípios vizinhos localizados ao longo do corredor da BR-262, como Ribas do Rio Pardo e Água Clara, também foram duramente atingidos pela saída da Guerino Seiscento.

​Como essas cidades funcionam como pontos intermediários de embarque na rota que conecta Campo Grande a São Paulo, a perda de uma das operadoras reduziu drasticamente as opções de horários diários. Para os moradores dessas localidades — muitas vezes dependentes do transporte rodoviário para tratamento de saúde, trabalho ou estudos —, viajar para o estado vizinho tornou-se uma tarefa mais cara, demorada e com pouca margem de escolha.

​Entenda a disputa (Resumo)

  • ​A Andorinha denunciou à ANTT supostas irregularidades na operação de linhas interestaduais da Guerino Seiscento.
  • ​A ANTT instaurou processo administrativo e suspendeu cautelarmente 23 autorizações da empresa.
  • ​A Diretoria Colegiada manteve a wsuspensão enquanto o processo segue em análise.
  • ​A Guerino contesta a decisão, afirma que atua dentro da legalidade e busca reverter a medida na Justiça.
  • ​Entre as linhas afetadas estão importantes ligações envolvendo Mato Grosso do Sul, como Campo Grande-São Paulo, Campo Grande-Santos e Três Lagoas-São Paulo (impactando também Ribas do Rio Pardo e Água Clara).

João Maria Vicente, com informações do Correio do Estado

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