O Brasil já alimenta o mundo. O próximo desafio é agregar valor ao que produz 

*Por Henrique Galvani, CEO da Arara Seed

O agronegócio brasileiro vive um momento histórico. No primeiro trimestre de 2026, o setor alcançou US$ 38 bilhões em exportações e superávit de US$ 33 bilhões, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), consolidando mais uma vez sua posição entre os principais motores da economia nacional. Novamente, o Brasil mostrou ao mundo sua capacidade de produzir em escala, com competitividade e relevância global.

Mas talvez o dado mais estratégico esteja menos no recorde e mais na sua composição: no mesmo período, o volume exportado pelo agro brasileiro cresceu 3,8%, enquanto o preço médio caiu 2,8%. Em outras palavras, seguimos vendendo muito, mas nem sempre capturando proporcionalmente mais valor.

Esse é o ponto central da discussão. O Brasil já venceu o desafio da produção. Temos tecnologia tropical, escala, solos produtivos, produtores altamente eficientes e uma cadeia que se profissionalizou muito nas últimas décadas. O próximo desafio é outro: agregar valor ao que produzimos.

Durante muito tempo, a grande missão do agro brasileiro foi aumentar a oferta de alimentos. E fizemos isso com enorme competência. O país se tornou protagonista global na soja, nas carnes, no café, no açúcar, no milho, no algodão e em tantos outros segmentos. Mas o futuro do agro não será definido apenas por quem produz mais. Será definido por quem consegue produzir melhor, perder menos, processar mais, rastrear com mais precisão, certificar com credibilidade, construir marcas, acessar consumidores e transformar sustentabilidade em vantagem competitiva.

Essa discussão ganha relevância porque o problema deixou de ser apenas aumentar a oferta de alimentos. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) alerta que o mundo praticamente não avançou na redução das perdas de alimentos desde o início do monitoramento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), mantendo distante a meta de reduzir o desperdício pela metade até 2030. Em outras palavras, produzir mais já não basta. É preciso aproveitar melhor o que já produzimos.

Esse ponto deveria estar no centro da estratégia do agro brasileiro. Reduzir perdas logísticas, melhorar armazenagem, ampliar processamento, desenvolver embalagens inteligentes, usar dados para gestão de risco, rastrear cadeias, certificar práticas sustentáveis e aproximar o produtor do consumidor são caminhos concretos para aumentar a eficiência e capturar mais valor.

Precisamos urgentemente agregar valor ao que é produzido internamente

Quando olhamos para países menores, a lição fica evidente. A Holanda, por exemplo, não construiu sua relevância agroalimentar global apenas com escala territorial. O país investiu em tecnologia, logística, processamento, pesquisa, estufas, genética, alimentos preparados, equipamentos e marcas. É um exemplo claro de que a liderança no agro não depende apenas de produzir muito em muitas áreas, mas de transformar produção em valor.

Essa comparação não deve ser vista como uma crítica ao Brasil, mas como uma inspiração estratégica. Temos algo que poucos países têm: escala produtiva, biodiversidade, clima, água, empreendedorismo rural e uma nova geração de empresas desenvolvendo soluções para os gargalos do campo. Se combinarmos esses ativos com tecnologia, capital e visão de longo prazo, podemos deixar de ser apenas grandes fornecedores de matéria-prima para nos tornarmos protagonistas em soluções agroalimentares.

Oportunidade para acelerar a inovação no agro

É aqui que as agtechs e foodtechs assumem um papel cada vez mais estratégico. Elas são parte essencial dessa nova fase do agro brasileiro. São empresas capazes de desenvolver soluções para eficiência operacional, crédito, seguro, rastreabilidade, bioinsumos, agricultura regenerativa, redução de desperdício, novos alimentos, inteligência de mercado, logística, carbono e conexão direta entre produtores, indústrias e consumidores.

O produtor rural brasileiro já mostrou que sabe adotar tecnologia quando ela resolve problemas reais. Agora, o desafio é criar um ecossistema que permita que essas soluções ganhem escala. Isso exige capital, governança, conexão com grandes empresas, acesso a mercado e uma agenda regulatória que favoreça a inovação sem perder segurança.

Também exige uma mudança de mentalidade. O agro brasileiro não pode aceitar que a maior parte da margem fique fora da porteira, fora da indústria nacional ou fora do país. Exportar soja, café, carne, frutas e açúcar continuará sendo importante. Mas precisamos fazer uma pergunta mais ambiciosa: quanto valor adicional podemos capturar se exportarmos também ingredientes, alimentos processados, marcas, tecnologia, dados, certificações, bioinsumos, máquinas, genética, plataformas e soluções climáticas?

O debate público sobre o agro ainda está muito concentrado em safra, produtividade e exportações. Esses indicadores continuam fundamentais, mas já não explicam sozinhos a competitividade do setor. Investidores, consumidores e compradores internacionais observam cada vez mais como os alimentos são produzidos, quanto se perde ao longo da cadeia, quais tecnologias estão sendo utilizadas e qual impacto ambiental e social está associado à produção.

O Brasil reúne condições únicas para liderar essa agenda. Temos escala, conhecimento técnico, produtores eficientes, empresas inovadoras e um ecossistema crescente de agtechs e foodtechs. O que precisamos agora é transformar essa combinação em uma nova narrativa econômica para o país.

Ser um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo continuará sendo motivo de orgulho. Mas, daqui para frente, isso será apenas parte da história. A liderança do agro brasileiro dependerá, cada vez mais, da capacidade de mostrar ao mercado global que produtividade, inovação e sustentabilidade podem caminhar juntas.

O Brasil já alimenta o mundo. Agora, precisa liderar uma nova etapa: produzir com inteligência, transformar com eficiência e vender com mais valor. A próxima década do agro brasileiro não será apenas sobre produzir mais. Será sobre capturar mais valor por tonelada, por hectare, por tecnologia, por marca e por impacto positivo gerado.

O Brasil já é uma potência agropecuária. O próximo passo é se tornar uma potência agroindustrial, tecnológica e sustentável.

Henrique Galvani é sócio-fundador e CEO da Arara Seed, primeira plataforma de equity crowdfunding voltada exclusivamente para o agronegócio. Formado em Ciências Contábeis pela Universidade Paulista, Galvani atua há 14 anos no setor, com passagens pelo Grupo BLB e pela BLB Ventures. Em 2024, foi reconhecido pela Forbes como um dos talentos do agro na lista Under 30.