Retomada da UFN-III joga luz sobre prejuízo de 36 milhões sofrido por comerciantes de Três Lagoas

Em meio à visita do presidente Lula para o reinício das obras nesta quinta-feira (25), empresários locais cobraram da Petrobras e do Governo Federal a reparação pelos calotes sofridos após mais de uma década de paralisação.

​A confirmação da retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados (UFN-III), selada nesta quinta-feira, 25 de junho, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Três Lagoas (MS), reacendeu no município a promessa de soberania agrícola e desenvolvimento econômico. Contudo, o clima de celebração dividiu espaço com uma ferida social e financeira que permanece aberta há mais de doze anos na região.

​Por trás dos discursos oficiais e das projeções de futuro, o comércio de Três Lagoas carrega um passivo humano e financeiro doloroso, deixado pela paralisação abrupta do projeto no passado. Uma carta aberta de autoria do jornalista local Ricardo Ojeda direcionada ao presidente Lula joga luz sobre o rastro de destruição econômica que sufocou centenas de famílias, empresários e trabalhadores que acreditaram no empreendimento e receberam, em troca, o abandono institucional.

​De acordo com levantamentos realizados desde a interrupção das obras, mais de 133 empresas do município acumularam prejuízos que ultrapassam a marca dos R$ 36 milhões. Restaurantes, hotéis, alojamentos, oficinas mecânicas, clínicas médicas, prestadores de serviços e fornecedores locais de materiais confiaram na solidez de um projeto que tinha a Petrobras como protagonista. Em vez de prosperidade, esses estabelecimentos receberam um calote em série das empreiteiras e subempreiteiras da estatal, resultando em dívidas acumuladas e portas fechadas.

​O impacto econômico rapidamente converteu-se em uma crise humanitária de proporções regionais. Atraídos pelo porte bilionário da fábrica de fertilizantes, muitos comerciantes locais expandiram suas estruturas, contraíram empréstimos e ampliaram estoques para atender à demanda da megaobra. Com a suspensão repentina, empresários perderam tudo o que construíram ao longo de décadas, faliram ou foram forçados a deixar a cidade. Há relatos dramáticos de pessoas que enfrentaram graves problemas psicológicos e emocionais diante do desespero das cobranças e da ausência total de respostas.

​A batalha pelo ressarcimento desses valores já se arrasta por mais de uma década no Poder Judiciário. Em determinado momento da disputa, uma ação movida pela Associação Comercial e Industrial de Três Lagoas conseguiu o bloqueio de aproximadamente R$ 36 milhões nas contas da Petrobras. No entanto, o destino final desses recursos e os esclarecimentos sobre os repasses aos credores lesados permanecem envoltos em dúvidas e questionamentos que até hoje não foram sanados para a sociedade.

​A comunidade empresarial e a imprensa local reforçam que a consolidação da UFN-III é vital para o agronegócio e para a segurança alimentar do Brasil, reduzindo a dependência externa de amônia e fertilizantes estratégicos. Contudo, o manifesto enfatiza que nenhuma obra pode ser considerada verdadeiramente grandiosa se for erguida sobre lágrimas, falências e histórias interrompidas de quem ajudou a construir a base do projeto.

​O apelo direcionado ao Governo Federal e à alta cúpula da Petrobras cobra que as autoridades encontrem, em paralelo à nova fase da construção, os caminhos legais e institucionais necessários para encerrar definitivamente esse capítulo. A liquidação das dívidas passadas é vista pela cidade como um gesto essencial de dignidade, respeito e responsabilidade social para com aqueles que pagaram o preço mais alto pela paralisação do projeto.

João Maria Vicente

Foto – Arquivo