Cultivar BRS Savana é destaque em Dia de Campo sobre trigo safrinha no DF

Foto: Breno Lobato

Os pesquisadores Ângelo Sussel (Embrapa Cerrados) e Jorge Chagas (Embrapa Trigo) apresentaram características da cultivar e recomendações de manejo

Lançada pela Embrapa na AgroBrasília 2026, a cultivar de trigo sequeiro BRS Savana foi apresentada a 65 produtores e técnicos em Dia de Campo promovido pela Cooperativa Agropecuária da Região do Distrito Federal (Coopa-DF) na Fazenda Barra Alta, no PAD-DF, Distrito Federal, na última terça-feira (16). Os participantes também obtiveram informações sobre a cultivar BRS 404, bem como sobre o manejo do trigo no Cerrado e das principais pragas e doenças que acometem a cultura na região.

O vice-presidente da Coopa-DF, Leandro Maldaner, destacou que o trigo sequeiro, cultivado no período de safrinha, ainda é uma cultura desafiadora no Planalto Central: “É calor, chuva, umidade, temperatura, novas pragas e doenças. Mas estamos dando um grande passo para o Brasil ser autossuficiente em trigo. Esse é o nosso dever”, afirmou.

Para o responsável técnico da cooperativa, Cláudio Malinsky, a obtenção de novas variedades tem, no entanto, animado os triticultores. “São cultivares desenvolvidas aqui na região. Com isso, estão mais adaptadas, são mais resistentes ao calor e à seca e são mais resistentes a doenças”, comentou, acrescentando que o País poderá se tornar autossuficiente em trigo com a produção do Centro-Oeste, que dispõe de 6 a 7 milhões ha de áreas com potencial para o cultivo da cultura. “Já se pode colher 2 mil kg/ha, que é uma produtividade baixa, mas já permite chegarmos à autossuficiência”, estimou.

Tolerância à seca, ao calor e à brusone com produtividade e qualidade

O pesquisador Jorge Chagas, da Embrapa Trigo (RS), apresentou as principais características da cultivar BRS Savana, selecionada para o cultivo no bioma Cerrado e atualmente em fase de multiplicação de sementes em áreas de parceiros da Embrapa – Coopa-DF, Sementes Dona Aurora, Sementes Faita, Abrahim Sementes/Futura Agronegócio, Agrofarm Sementes e Agromil Sementes.

A cultivar é recomendada para plantio no período de safrinha, em sistema de sequeiro, nas regiões tritícolas de Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal com altitudes acima de 700 m e solos com teor de argila de pelo menos 30% de argila.

Apresenta ciclo precoce (em torno de 100 dias conforme o clima da região), com espigamento em cerca de 50 dias. “É um material que se desenvolve e fica pronto muito rápido. Se houver umidade, ele vai aproveitar as condições ambientais da melhor forma possível”, disse o pesquisador, acrescentando que o porte baixo a médio das plantas favorece a tolerância ao acamamento.

Mas as principais características destacadas para a cultivar são a tolerância à seca e ao calor, além da presença do gene 2NS de tolerância à brusone, doença que mais acomete os trigais no Cerrado. “Não é um material totalmente resistente à brusone, mas confere uma boa tolerância. A brusone demora a entrar nele e, quando entra, geralmente, atinge só o terço superior da espiga, com baixa incidência e baixa severidade”, explicou Chagas. “E quando isso acontece, o material compensa essas perdas enchendo mais os outros grãos que estão na espiga”, acrescentou. A BRS Savana é também tolerante ao alumínio do solo e apresenta boa resistência à debulha, o que garante mais tempo para a operação de colheita.

A qualidade industrial da cultivar, classificada como trigo pão, foi validada por moinhos da região. A força de glúten (W) média é de 302 x 10-4 J e a estabilidade é de 12 a 13 minutos; a farinha é branca, mas não é um trigo branqueador; o peso hectolítrico* (PH) médio é de 82 kg/hl, tendo ficado sempre acima de 80 kg/hl nos ensaios conduzidos na região, mesmo com baixa precipitação acumulada; o peso de mil sementes é elevado e os grãos são duros.

O rendimento de grãos tem variado de 30 sc/ha (com 100 mm de chuvas acumuladas) a 80 sc/ha (com 180 mm), em média. Chagas mostrou resultados de avaliações em 2025 – ano em que as condições climáticas não foram favoráveis à triticultura no Cerrado – em áreas de um produtor de Cristalina (GO), com rendimento de 86,16 sc/ha (a 1200 m de altitude), e de outro em Sacramento (MG), com 66,8 sc/ha (a 1140 m de altitude).

Apesar da atual indicação para cultivo em sistema de sequeiro, a BRS Savana também tem sido avaliada para uso em sistema irrigado. “Nos ensaios de trigo irrigado da Coopa-DF no ano passado, a cultivar liderou com 145,39 sc/ha. Isso mostra o potencial de rendimento de grãos nessa condição”, disse o pesquisador.

Recomendações de manejo

A época de semeadura sugerida para a cultivar é de 10 a 25 de março para o Distrito Federal e Goiás e até o dia 5 de abril no Sul de Minas Gerais. “Como foi dito, o material é tolerante, mas não é resistente à brusone, e o mês de março e o início de abril podem ser bem chuvosos. O produtor pode ter dificuldade no controle da doença se o trigo for plantado muito cedo, como em fevereiro, por exemplo”, explicou Chagas, ressaltando a importância de observação do Zoneamento Agrícola de Risco Climático para o trigo, divulgado por meio de portarias do Ministério da Agricultura e Pecuária.

Outra recomendação do pesquisador é ajustar o ciclo da soja para que ele se encaixe ao ciclo do trigo. “Nos ensaios aqui na região, sojas mais tardias têm demonstrado, nos últimos 10 anos, diferenças em média de 10 a 12 sc/ha (a mais) em relação às sojas precoces. Com o trigo, é possível ajustar melhor o ciclo e dar uma folga maior na janela de plantio da soja, extraindo o máximo dela e depois entrando com o cereal”, disse.

A densidade de plantio recomendada para a BRS Savana é de 330 a 380 sementes/m2, com 56 a 65 plantas/metro linear. A adubação de manutenção segue recomendações gerais para o cultivo do trigo na região – 50 a 60 kg/ha de fósforo; 15 a 30 kg/ha de potássio; 1 kg/ha de boro a cada dois anos; zinco; cálcio; e enxofre por meio do gesso agrícola, que permite o aprofundamento das raízes e maior exploração de água no solo.

A adubação com nitrogênio consiste em aplicar de 10 a 20 kg/ha na base e 40 a 50 kg/ha em cobertura, devendo totalizar 60 kg/ha; em caso de chuvas, a adubação de cobertura deve ser feita até 15 dias após a germinação. “Essa quantidade de nitrogênio é suficiente para a planta se desenvolver da melhor forma possível em março e abril. Depois, a oferta ambiental será pequena. E o trigo precisa ficar com o custo baixo”, explicou o pesquisador, pontuando a inconstância das chuvas durante o ciclo do trigo safrinha.

Um trigo “zebu”

Responsável pelo plantio da cultivar em área arrendada na Fazenda Barra Alta e na Fazenda Bandeirante, de sua propriedade, Leomar Cenci é um dos produtores que estão testando a BRS Savana nesta safra. Ele destacou o comportamento positivo da cultivar em relação à brusone. “Este foi um ano bem atípico, a chuva parou muito cedo. Fizemos as aplicações (de defensivos) até um certo ponto e depois paramos em função do clima, que não ajudou o desenvolvimento da cultura”, recordou.

Cenci também salientou a rusticidade do material diante da falta de chuva: “Esse trigo foi plantado em 28 e 29 de março, e tivemos chuvas (cerca de 100 mm) até 9 de abril. Ele pegou praticamente 15 dias de chuva e chegou até o final. Chama muito a atenção a resistência à seca que essa variedade demonstrou. Para esse plantio de safrinha, isso é extremamente importante para o produtor”, afirmou, lembrando que o regime de chuvas tem variado a cada ano. “E este foi um ano para realmente validar a cultivar”, completou.

Para Cláudio Malinsky, que acompanhou as lavouras de Cenci nos primeiros 50 dias e tornou a vê-las após 10 dias, o desempenho da cultivar foi surpreendente: “Depois de 10 dias, não era a mesma lavoura. E não choveu! Ele (trigo BRS Savana) é um zebu mesmo: aguenta calor e seca, e a prova está aí. Lógico que temos que reconhecer o mérito do produtor no manejo, mas a genética é muito boa. Fico admirado, porque achei que não daria trigo algum”, relatou, comparando a cultivar aos bovinos de raças zebuínas, conhecidos pela adaptabilidade às condições climáticas do Brasil Central.

Leomar Cenci aponta que quanto mais opções disponíveis ao produtor para o fechamento de safra, melhor. “O trigo não vai tomar o lugar do milho, vai entrar mais no final (da safra), talvez ocupando um pouco do lugar do sorgo. Mas, pensando numa cultura que venha em seguida, esse trigo com certeza vai agregar mais que um sorgo ou outras culturas que temos o costume de plantar”, disse.

Nesse sentido, o pesquisador Jorge Chagas comentou que além de proporcionar rendimento no período de safrinha, a cultivar BRS Savana vai otimizar o cultivo seguinte de soja, possibilitando maiores produtividades. Ele acredita que o trigo plantado por Cenci nesta safra possa obter pelo menos 28 a 32 sc/ha, com qualidade de moinho. “Se fizermos as contas, mesmo numa condição extremamente desfavorável de cultivo ainda deve sobrar um dinheiro do trigo. Se tivesse caído uma chuva ainda no final de abril, o rendimento poderia ser transformado em 60, 70 sc/ha facilmente”, analisou.

BRS 404: opção de baixo custo para fechamento de plantio

O pesquisador falou, ainda, sobre a cultivar BRS 404, que apesar da baixa tolerância à brusone é bastante tolerante à seca e ao calor. “Neste ano, inclusive, tenho acompanhado boas lavouras, que devem entregar 40 a 50 sc/ha”, comentou, apontando que o material ainda é uma ótima opção para fechamento de plantio, podendo ser plantado após o dia 25 de março com baixo risco.

A cultivar é recomendada para as mesmas regiões que a BRS Savana, sendo também de PH elevado, de ciclo precoce (em torno de 120 dias) e bem aceita pelos moinhos. A densidade de semeadura (250 a 300 sementes/m2 ou 42 a 51 plantas/metro linear) e a demanda por nitrogênio na adubação (50 kg/ha) são menores que as da nova cultivar, representando um custo mais baixo. Em 2021, no ensaio semeado em 29 de março pela Coopa-DF, a BRS 404 produziu 71,95 sc/ha, com PH de 84 kg/hl.

Cuidados para minimizar a ocorrência da brusone

Ângelo Sussel, pesquisador da Embrapa Cerrados (DF), explicou que a principal orientação quanto ao manejo da brusone no trigo safrinha é respeitar a janela de plantio, que na região se inicia em 5 de março. “Se foi colhida uma soja precoce, a área ficou vazia e o produtor quer cobri-la o mais rápido possível antecipando a semeadura de qualquer material trigo de sequeiro, corre o grande risco de receber excesso de chuvas após o período de espigamento, que é o momento em que a planta está mais suscetível à brusone”, alertou.

O pesquisador observou que ainda não existe uma tecnologia de alta eficiência para a proteção das espigas contra a doença. “Os produtos são eficientes, mas não conseguimos colocá-los dentro das espigas”, justificou, acrescentando que atrasar a semeadura demais, por outro lado, traz o risco de espigamento num período mais seco.

Ele acrescentou que a semeadura ajustada à janela de plantio permite que o manejo químico da área seja realizado de forma a prevenir a ocorrência da brusone. “Quando percebemos que haverá chuva durante o período do espigamento, devemos entrar com a pulverização para proteção, principalmente quando a planta está na fase de emborrachamento. Se você tem um planejamento de manejo de manchas foliares, esse controle já vai promover uma proteção da folha bandeira, reduzir o inóculo que vai subir para a espiga e, consequentemente, diminuir a chance de epidemia de brusone nas espigas”, recomendou.

Para o trigo irrigado, que é semeado em maio, a temperatura e a umidade relativa do ar durante o ciclo da planta são diferentes e desfavorecem a doença, mas, segundo Sussel, a janela de plantio também precisa ser observada. “O plantio antecipado vai trazer o mesmo risco que o da antecipação de semeadura do trigo sequeiro. E se o plantio for tardio demais, corre-se o risco, entrando no mês de setembro, da possibilidade de chuvas na colheita”, informou.

Outra medida importante é escolher materiais mais tolerantes à brusone. Apesar de ainda não haver um material totalmente resistente à doença, atualmente há um leque de opções interessantes para plantio no Cerrado, como é o caso da BRS Savana. “São materiais que já apresentam uma determinada tolerância e que, com o manejo químico associado, podem garantir altas produtividades”, finalizou.

Também participaram do Dia de Campo da Coopa-DF como expositores a Yara Brasil e a OR Genética de Sementes.

*Peso hectolítrico é uma característica de qualidade do trigo. Quanto maior o peso do hectolitro, maiores são o teor de matéria seca e o rendimento de farinha.

Breno Lobato (MTb 9417/MG)

Embrapa Cerrados

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