Canetas emagrecedoras podem influenciar a saúde dos cabelos? Tricologista explica relação entre inflamação, emagrecimento e queda capilar

Popularização dos medicamentos para perda de peso também levanta dúvidas sobre massa magra e queda de cabelo; especialista, Dra. Marcia Dertkigil, explica por que metabolismo e saúde dos fios podem estar relacionados
As chamadas canetas emagrecedoras se tornaram cada vez mais populares no tratamento da obesidade e do excesso de peso. Com a ampliação do acesso e a expectativa de novas opções no mercado, o uso desses medicamentos também passou a despertar dúvidas sobre possíveis impactos na saúde dos cabelos.

A relação pode parecer inesperada, mas, segundo a médica tricologista Dra. Márcia Dertkigil, existe uma conexão importante a ser considerada: a inflamação.

“A obesidade é, por si só, uma condição inflamatória, e as alopecias também apresentam componentes inflamatórios. Quando temos um organismo inflamado, isso pode repercutir em diferentes sistemas, inclusive no ciclo do cabelo”, explica a especialista.

Mas o que a caneta emagrecedora tem a ver com cabelo?

De acordo com a médica, o interesse da tricologia pelos medicamentos utilizados no tratamento da obesidade está justamente na possibilidade de atuar sobre alterações metabólicas e inflamatórias que podem estar associadas à saúde dos folículos.

“A caneta emagrecedora pode reduzir processos inflamatórios relacionados à obesidade. E essa é uma questão que também nos interessa na tricologia, porque o folículo piloso responde ao ambiente metabólico e hormonal do organismo”, afirma Dra. Márcia.

A especialista ressalta, entretanto, que isso não significa que toda pessoa com queda de cabelo tenha indicação para utilizar uma medicação para emagrecimento. A decisão deve partir de uma avaliação individualizada.

Perda de peso também pode desencadear queda de cabelo

Outro ponto que merece atenção é que a queda capilar observada durante o emagrecimento pode ter diferentes causas.

Quando a perda de peso acontece de maneira acelerada ou acompanhada por uma redução importante da ingestão de calorias e nutrientes, o organismo pode entrar em uma situação de estresse fisiológico, favorecendo o eflúvio telógeno, um tipo de queda geralmente temporária.

“Hoje existe muita gente usando essas medicações e perdendo peso rapidamente. Nesse contexto, precisamos olhar também para a massa magra, a alimentação e o estado nutricional. Não podemos simplesmente colocar toda queda de cabelo na conta da caneta”, alerta a tricologista.

Por isso, segundo ela, o acompanhamento deve considerar não apenas o número apresentado pela balança, mas também a composição corporal e a saúde do paciente como um todo.

Uso também é discutido em outras especialidades

A popularização dos medicamentos para obesidade fez com que seus efeitos metabólicos passassem a ser considerados em diferentes áreas da medicina.

“Hoje, a gente percebe que essas medicações estão sendo utilizadas e estudadas em diferentes especialidades. O cardiologista pode considerar seus efeitos sobre o risco cardiovascular; o nefrologista, os impactos relacionados à obesidade e à sobrecarga renal; o endocrinologista acompanha principalmente as questões metabólicas”, explica Dra. Márcia.

Na tricologia, a discussão envolve a relação entre metabolismo, inflamação, hormônios e funcionamento do folículo piloso.

“Como tricologistas, também precisamos olhar para o organismo como um todo. Não tratamos apenas o fio que caiu. Precisamos entender por que aquele folículo está sofrendo”, afirma.

E a questão hormonal?

Outro aspecto mencionado pela especialista é o equilíbrio hormonal. Segundo ela, alterações hormonais podem participar de processos inflamatórios e interferir no funcionamento dos folículos em determinados pacientes.

“A questão hormonal também precisa ser avaliada. Em algumas mulheres, por exemplo, alterações na relação entre os hormônios podem estar associadas a manifestações no couro cabeludo e no cabelo. Por isso, a avaliação precisa ser individual e baseada na história e nos exames de cada paciente”, explica.

É preciso usar para sempre?

Uma das dúvidas que surgem com a popularização das canetas é se o tratamento precisa necessariamente ser temporário.

Para Dra. Márcia, essa discussão precisa considerar a obesidade como uma condição crônica em muitos pacientes.

“Quando um médico indica uma medicação para uma condição crônica, não necessariamente existe uma data determinada para interromper o tratamento. Precisamos pensar da mesma maneira quando falamos sobre obesidade: cada paciente deve ser acompanhado e a estratégia pode ser ajustada ao longo do tempo”, afirma.

A médica ressalta que isso não significa que todas as pessoas devam utilizar o medicamento continuamente ou em determinada dose. A indicação, a manutenção ou a suspensão devem ser decididas pelo profissional responsável.

E a chamada “microdose”?

A ideia de utilizar a menor dose capaz de produzir o resultado desejado também aparece na discussão sobre o tratamento.

“Quando existe indicação médica, trabalhamos sempre buscando a menor dose que produza o resultado esperado para aquele paciente. Não é simplesmente usar mais porque o objetivo é emagrecer mais rápido”, destaca a tricologista.

A estratégia deve levar em conta resposta individual, efeitos adversos, composição corporal, alimentação, histórico clínico e objetivos do tratamento.

Caneta emagrecedora não é tratamento universal para queda de cabelo

Apesar da relação entre metabolismo, inflamação e saúde capilar ser um campo de interesse, a utilização de medicamentos para obesidade especificamente com o objetivo de tratar alopecia ainda exige cautela e avaliação médica.

“Não estamos falando que toda queda de cabelo deve ser tratada com caneta emagrecedora. O que estamos dizendo é que existe uma conexão entre metabolismo, inflamação, hormônios e saúde dos folículos que precisa ser considerada. Cada paciente precisa ser investigado individualmente”, finaliza Dra. Márcia Dertkigil.

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DAIANE BOMBARDA
Jornalista/Assessoria de Imprensa