
* Por Lourdes Manzanares
O Acordo de Comércio entre o Mercosul e a União Europeia entrou em vigor provisoriamente em 1º de maio deste ano, depois de mais de duas décadas de negociações. Passados quatro meses de vigência, o que se percebe no Paraná não é ainda uma revolução nos números, mas um movimento estratégico. As empresas estão se organizando, buscando informação e se preparando para vender mais e melhor para um mercado de mais de 700 milhões de consumidores.
E o estado já chega a esse momento em vantagem. Em 2025, o Estado exportou US$ 2,46 bilhões para o bloco europeu, o equivalente a 10,4% de tudo o que vendeu ao exterior, mais do que embarcou para Argentina, Estados Unidos e México somados a cada um desses mercados isoladamente. Não é uma relação que começa agora, é um vínculo que o acordo vem potencializar.
Os setores com maior capacidade de aproveitar as novas condições são o agronegócio e a agroindústria, os mais competitivos globalmente, os mais resilientes a crises externas e os que mais pesam no PIB do Estado e do país. Não por acaso, farelo de soja, madeira trabalhada, carnes (especialmente frango), açúcares e melaços lideram a pauta paranaense para a Europa. Em 2025, só o farelo de soja somou US$ 950 milhões em vendas ao bloco, seguido pela madeira compensada (US$ 203 milhões) e pela carne de frango in natura (US$ 187 milhões).
Mas o Paraná não exporta só commodity. Máquinas de terraplanagem, partes de motores para veículos e produtos químicos também aparecem entre os itens de maior valor agregado que já circulam para a Europa, e são justamente os setores com espaço para crescer com a redução de tarifas prevista no acordo.
Hoje, o impacto do acordo é mais estratégico do que estatístico. As empresas paranaenses estão concentradas em entender como exportar e como aplicar as novas regras, sobretudo em proteína animal, café, azeites vegetais, alimentos processados, máquinas e componentes industriais. Esse interesse já se traduz em mais investimento em expansão produtiva, puxado pela maior previsibilidade comercial e pelo acesso ampliado ao mercado europeu.
Como consequência direta, cresce a corrida por certificações fitossanitárias, ambientais e de rastreabilidade compatíveis com as normas europeias, um movimento que afeta com força a agroindústria, o setor de alimentos, moda, design e produtos com indicação de origem.
Nem todas as empresas estão prontas, mas os gargalos são conhecidos
Contudo, seria ingênuo dizer que todas as empresas paranaenses, ou brasileiras, já estão preparadas para o mercado europeu. As que trabalham com produtos de maior valor agregado, acostumadas a exportar para vários países do bloco, largam na frente. Já os elos mais primários da cadeia, como o setor agrário, precisam se adaptar, e a procura por informação técnica tem crescido exatamente por isso.
Os desafios são de duas ordens. Do lado estrutural, o Paraná ainda esbarra em gargalos logísticos conhecidos, como a necessidade de renegociar concessões de pedágio, ampliar a capacidade do Porto de Paranaguá e destravar a Ferroeste. O transporte rodoviário segue predominante no Brasil, e o custo disso é real. Muitas vezes é mais barato embarcar uma carga por navio até a Europa do que transportá-la de caminhão entre estados do próprio país.
Do lado regulatório, pesa o Regulamento europeu de Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), que passa a valer a partir de 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas e exige comprovação de origem, lote a lote, de commodities como soja, madeira e carne, um processo de rastreabilidade complexo e caro, mas sem o qual não há acesso ao mercado europeu. Some-se a isso a criação do IVA l (Imposto sobre Valor Agregado) pela reforma tributária brasileira, que, na prática, obrigará as empresas a operar dois sistemas tributários em paralelo por um bom tempo, encarecendo a gestão em um momento que pedia justamente o contrário.
O que falta para o Paraná aproveitar a janela
Nada disso é automático. Redução de tarifa não é sinônimo de venda garantida, é uma condição a mais em um jogo que ainda exige investimento em rastreabilidade, adequação regulatória e, sobretudo, infraestrutura logística à altura do potencial produtivo do Estado. As empresas de maior porte, mais acostumadas ao mercado europeu, já vêm se movimentando. O desafio agora é levar essa mesma preparação para as médias e pequenas, que respondem por boa parte da produção primária e são as que mais sentirão o peso das novas exigências.
O acordo Mercosul-União Europeia abre uma janela real de oportunidade para o Paraná. Cabe ao Estado, ao setor produtivo e às cadeias de apoio técnico transformar essa previsibilidade comercial em resultado concreto, antes que outros concorrentes globais o façam primeiro.
Lourdes Manzanares é Diretora da Câmara de Indústria e Comércio Brasil-Alemanha do Paraná e Diretora Geral da Interprint do Brasil
Sobre a AHK Paraná – Estimular a economia de mercado por meio da promoção do intercâmbio de investimentos, comércio e serviços entre a Alemanha e o Brasil, além de promover a cooperação regional e global entre os blocos econômicos. Essa é a missão da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha (AHK Paraná), entidade atualmente dirigida por Lourdes Manzanares, a primeira diretora mulher da AHK Paraná.
Imagens relacionadas
Julia Abdul-Hak – Smartcom
Assessora de Comunicação
julia.abdul@smartcom.net.br
(41) 3039-3934 / (41) 98814-4718
Continue sempre bem informado acessando nossos portais:
-
Jornal Dia Dia –
Sua fonte confiável para as melhores notícias e artigos úteis. Fique por dentro dos acontecimentos mais importantes, dicas práticas e conteúdos de qualidade. -
Jornal Brasil Regional (JBR) –
O pulso do país em tempo real. Notícias nacionais, regionais e internacionais com ética e credibilidade. -
Castilho Notícias (News) –
O seu diário local com cobertura de Castilho e Região (SP). Jornalismo com credibilidade. -
Casa e Jardim –
Dicas exclusivas sobre decoração, jardinagem, arquitetura, DIY, reformas e muito mais. Tendências, soluções práticas e ideias criativas para todos os estilos e orçamentos. -
B10 Brasil –
As principais notícias, análises e insights sobre negócios, economia e soberania nacional. Conectando o Brasil ao mundo com inteligência e estratégia.

